PASTORES, SEGUNDO O MEU CORAÇÃO
Edificado às margens da Via Aurelia, o majestoso prédio, em estilo renascentista, do Pontifício Colégio Pio Brasileiro testemunha uma rica história de vida e formação dos presbíteros provenientes da imensa Terra de Santa Cruz. Quem o conhece, percebe que, em cada parte desta grande casa, ecoa o testemunho de uma herança que enobrece a vida eclesial de nosso país e continua, ainda hoje, a impulsionar os membros da comunidade a galgarem os ideais delineados desde os primeiros passos desta magnífica obra. O berço desta história tem seu lugar nos idos de 1927, quando o então Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, tomou a iniciativa de concretizar um sonho de diversos bispos brasileiros: construir, em Roma, um colégio para os seus levitas. Diga-se, de passagem, que vários seminaristas do Brasil já se encontravam estudando na Cidade Eterna como alunos do Pontifício Colégio Pio Latino Americano. Mas, o desejo, já outrora expresso pelo Cardeal Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Dom Antônio de Macedo Costa e outros, era de que o Brasil tivesse sua própria sede para acolher e formar os seus futuros padres. Dom Leme não esteve sozinho nesta fascinante e desafiadora empreitada, mas contou com o incentivo e fundamental apoio do Papa Pio XI e a importante colaboração do Cardeal Benedetto Aloisi-Masella, então Núncio Apostólico no Brasil, e do Pe. Vladomiro Ledochowski, então Prepósito-Geral da Companhia de Jesus. Pouco a pouco, este sonho começou a tornar-se realidade. O Prepósito-Geral dos Jesuítas, a quem o colégio foi confiado, dirigiu uma comissão destinada a estudar os possíveis terrenos onde a obra poderia ser realizada. Pio XI acompanhou, com interesse, tal pesquisa e, quando as propostas lhe foram apresentadas, ele mesmo escolheu o local situado na Villa Maffei, onde deveria ser edificado o Seminário Brasileiro. Aos 25 de outubro de 1929, o Papa abençoou a pedra fundamental durante uma audiência concedida a um grupo de peregrinos, do Rio de Janeiro, vindo a Roma para saudá-lo pelo seu quinquagésimo aniversário de ordenação sacerdotal. Nesta ocasião, revelou que a construção de um colégio, em Roma, para os seminaristas do Brasil era já um “um pensamento e um anelo dos primórdios do seu pontificado” e agradeceu a todos aqueles que, generosamente e sem medir esforços, estavam colaborando para a realização desta obra “de onde espera hão de sair aqueles que verdadeiramente poderão ser os futuros evangelizadores do seu grande País, até seus limites extremos, até as suas mais remotas e verdejantes solidões”. Dois dias depois, foi realizada a solene cerimônia de lançamento da primeira pedra. Não obstante a chuva que caía naquela tarde, várias personalidades tomaram parte à celebração presidida pelo Cardeal Gaetano Bisletti, então Prefeito da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades de Estudos. Antes do final da celebração, um mensageiro veio do Vaticano trazendo um telegrama através do qual o Santo Padre manifestava o seu júbilo pelo acontecimento e seus augúrios de promissor futuro ao colégio que dava seus primeiros passos. A inauguração deu-se no dia 3 de abril de 1934. Além dos 34 alunos fundadores e dos 7 jesuítas responsáveis pela direção, estavam presentes diversas autoridades eclesiásticas e civis. Os anais da casa assim descrevem os eventos deste dia memorável: “Às 16 horas, o Cardeal Gaetano Bisletti, na qualidade de representante do Papa Pio XI, benze o colégio e, às 17 horas, oficia a primeira bênção eucarística solene na capela dos alunos. Antes do Tantum Ergo, S. Eminência leu, em italiano, a fórmula de consagração do colégio ao Sagrado Coração de Jesus. Logo após a bênção, houve sessão solene no salão de atos, literalmente lotado. O Card. Gaetano Bisletti presidiu o ato e falou porque o colégio se chama Pontifício. O P. Reitor leu o documento pontifício da Secretaria de Estado. Depois da sessão solene, foram tiradas fotografias na entrada do colégio”. Desde esta feliz data, são já passados 75 anos, ao longo dos quais, o Pio Brasileiro foi construindo sua história na busca constante de realizar a sua fundamental missão: oferecer os meios necessários à formação permanente de um considerável número de pastores da Igreja no Brasil. Muitos foram os seminaristas e os padres que, morando neste colégio, fizeram seus cursos de Filosofia, Teologia e as especializações nestas e em outras disciplinas. No total, foram mais de 1900 alunos provenientes das diversas regiões do Brasil e também de outros países da América Latina, da África e da Oceania. Destes alunos, 124 foram eleitos bispos e 4 foram elevados ao cardinalato. Unidos a eles, estão também inúmeras pessoas que, acreditando nesta obra, ofereceram e continuam a doar não somente sua colaboração, mas também suas vidas, para que este colégio seja um lugar propício para a formação humana, espiritual, intelectual e pastoral dos estudantes que por aqui passam. Dentre eles, deve-se recordar, com gratidão, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, os padres e irmãos da Companhia de Jesus, as religiosas Filhas do Amor Divino que, há quase 30 anos, servem e oferecem à comunidade um clima familiar, os funcionários e todos os amigos e benfeitores. Neste ano jubilar, a comunidade do colégio endereça um especial agradecimento ao Pe. Geraldo Antônio Coêlho de Almeida, SJ e ao Pe. Inácio Spohr, SJ que se dedicaram a esta casa desempenhando, respectivamente, a função de Reitor durante 9 anos e de Vice-Reitor por 10, com disponibilidade e perseverança, com alegria e amizade. Do mesmo modo, o sentimento de cordial acolhida se dirige ao. Pe. João Roque Rohr, SJ que assumirá, a partir do dia 29 de março, a reitoria desta veneranda instituição. Além deles, é digno de menção o Pe. Félix Alejandro Pastor Piñero, SJ que, há mais de 41 anos, vem oferecendo seus trabalhos como diretor de estudos, neste colégio. A comunidade do Pio Brasileiro iniciou o acadêmico 2008-2009 com115 alunos, dos quais 105 são provenientes do Brasil e 10 de outros países (Panamá, Equador, Colômbia, Chile, Angola e Madagascar). Somos gratos a Deus pela preciosa oportunidade de estudar em Roma e experimentar a fé vivida e professada na Igreja, testemunhada e regada pelo sangue dos mártires, cultivada e defendida por tantos santos e santas, transmitida e atualizada através da reflexão, da cultura e da arte, salvaguardada e confirmada pelo Sucessor de Pedro. É uma ocasião única que nos oferece ainda a possibilidade de conhecer, com mais propriedade, a realidade eclesial e social do Brasil mediante partilha entre colegas provenientes das mais longínquas regiões. Este jubileu tem sido marcado por vários encontros e celebrações, dentre os quais se destacam a Concelebração Eucarística do dia 25 de março, presidida pelo E.mo Sr. Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito da Congregação para a Educação Católica, na qual se antecipou a comemoração dos 75 anos, e a Santa Missa do dia 19 de junho, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, patrono do colégio, a ser presidida pelo Prepósito-Geral da Companhia de Jesus, Pe. Adolfo Nicolás. “Pastores segundo o meu coração”: esta promessa divina enunciada pela boca de Jeremias foi escolhida como lema e horizonte das celebrações do jubileu. Nela, encontra-se, em síntese, a missão deste colégio ao longo de seus 75 anos. Por isso, ao final destas linhas, juntamente com nossos parabéns ao Pontifício Colégio Pio Brasileiro, recordamos as palavras sempre atuais do Papa João Paulo II, proferidas na homilia da missa celebrada durante sua visita ao colégio, aos 17 de janeiro de 1982 que são, a um tempo, consolo e provocação: “Os sacerdotes de que o Brasil precisa devem ser antes de tudo bons e devotados Pastores. A gente boa e simples, herdeira de uma fé também singela mas arraigada, bem como as faixas instruídas da população, os líderes e ‘construtores da sociedade pluralista’, os adultos como as gerações emergentes precisam desses Pastores revestidos das qualidades que os tornam realmente aptos a servir como autênticos ministros de Jesus Cristo:
pastores próximos ao seu povo pela simplicidade, a compreensão e a abertura;
pastores prudentes, corajosos, dotados de ‘sapientia cordis’ para indicar caminhos para a vida sobretudo em momentos difíceis;
pastores que sejam verdadeiros mestres, fiéis ao Magistério e educadores do povo de Deus na fé, pregadores da Palavra de Deus, para que não se cumpra o que diz o livro de Samuel: ‘Naqueles dias a Palavra de Deus se tornara rara...’
pastores capazes de criar comunhão reunindo os dispersos, reconciliando os distantes, construindo com amor e paciência a comunidade;
pastores que sejam mestres de oração;
pastores de vida santa: de fé sólida e contagiante, de caridade irradiante, de oração permanente, de pureza, bondade e mansidão, de coração aberto para estar ao lado sobretudo dos mais pobres e necessitados, sem excluir ninguém da sua solicitude de pais e pastores;
pastores convictos da própria missão, alegres na sua vocação, que encontram sua realização no ministério de que são investidos por graça e predilecção do Senhor”. |
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Pe. Leandro de Carvalho Raimundo
Sacerdote da Arquidiocese de Pouso Alegre (MG)
e membro da Comissão Pró-Jubileu FONTE:
L’Osservatore Romano - Edição Semanal em Português, Ano XL, número 14 (2.050), sábado 4 de Abril de 2009. |