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JESUS E AS MULTIDÕES (Mc 3, 7-12)

Colégio Pio Brasileiro, Santa Inês, 21 de janeiro de 2010

(Homilia do Pe. Marcos Recolons SJ)


São Marcos situa esta passagem como um resumo da ação de Jesus numa primeira etapa, previa à constituição do grupo dos doze apóstolos. Ontem vimos os fariseus e herodianos rechaçando a Jesus e determinando matá-lo, hoje, ao contrário, vemos as multidões que afluem a Jesus dos quatro pontos cardeais, inclusive além das fronteiras da Palestina. Jesus se prepara para subir na barca de Pedro. Esta imagem tem um profundo simbolismo eclesial: as multidões buscam a Jesus e o encontrarão na barca de Pedro. Jesus se está preparando para constituir o grupo dos 12 apóstolos, a primeira comunidade eclesial, na cena que Marcos nos narrará na continuação.

Que buscam as multidões em Jesus? Muitos buscam o médico-curandeiro que lhes pode curar as enfermidades que os outros médicos não puderam curar. Outros buscam o Messias que os livre do imperialismo romano. Outros intuem em Jesus uma Boa Nova que traz uma mudança profunda na relação entre Deus e os homens e sentem arder seu coração ao escutar suas palavras. A palavra de Jesus é uma semente que cai em terrenos muito diversos. Jesus era muito consciente desta ambigüidade e diversidade nas motivações que o povo tinha para buscá-lo. No evangelho de João diz: "Vocês me buscam porque comeram até fartar-se e não porque tenham entendido os sinais milagrosos"(Jo 6,26). No Evangelho de hoje vemos que muitos enfermos se lançavam sobre Jesus para tocá-lo, porque curava muitos. Quantos daqueles doentes entendiam que sua cura era um sinal de libertação total do mal que nos traz Jesus? Quantos viam naquele homem que curava o Filho de Deus? Sem dúvida muito poucos, mas isto não desanima a Jesus que não cessa de pregar e de fazer sinais.

Os espíritos imundos derrotados por Jesus, sem dúvida pela boca dos possuídos ou dos que haviam sido possuídos, o reconheciam como Filho de Deus. Este era um momento triunfal que Jesus podia aproveitar para proclamar-se rei. Não é este o messianismo de Jesus e por isso lhes proíbe severamente que o chegassem a conhecer. Jesus só aceitará o reconhecimento daqueles que compreenderam o significado dos sinais. Daqueles que, como o centurião, são capazes de dizer, vendo Jesus morto na cruz, "verdadeiramente este é Filho de Deus". E serão multidões os que o reconhecem assim e estão dispostos a unir-se ao mistério pascal de Jesus, derramando seu sangue como ele.

Estar em Roma é um privilégio que nos faz viver e caminhar por uma terra regada pelo sangue de inumeráveis mártires. Celebramos hoje a festa dum deles, de uma jovem, Santa Inês, uma santa romana muito querida, que dá o nome a duas grandes igrejas: a de Santa Inês in agone, na Praça Navona, onde foi martirizada e a de Santa Inês fora dos muros na via Nomentana onde está seu sepulcro. É nesta igreja em que hoje se abençoam os dois cordeiros, cuja lã servirá para tecer os pálios dos arcebispos. São belas tradições romanas que se unem às legendas sobre esta virgem e mártir da qual a história nos fala muito pouco, exceto que seu culto é muito antigo, mas a piedade cristã ornou sua vida com muitos detalhes heróicos. Já que seu nome figura no cânon romano usaremos a oração eucarística primeira, que pede que também nós, que somos pecadores, possamos participar da comunidade dos santos apóstolos (daqueles doze homens simples que Jesus preparava hoje para chamar) e dos mártires como Inês e tantos outros e outras. Que isto nos conceda o Senhor, não por nossos méritos, mas pela riqueza de seu perdão. Que assim seja.




 

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