Community
 
Aggiungi lista preferiti Aggiungi lista nera Invia ad un amico
------------------
Crea
Profilo
Blog
Video
Sito
Foto
Amici
   
 
 

HOMENAGEM AO PE. JOÃO BOSCO PENIDO BURNIER, SJ

(Homilia do Reitor, Pe. João Roque Rohr, na Missa de 21 de maio de 2009)


Toda celebração eucarística atualiza e torna presente a memória da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Cada vez que nos reunimos ao redor do altar para celebrar este santo mistério, “anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda”. Mesmo quando fazemos memórias de outras vidas ou de outros acontecimentos salvíficos, o fazemos à luz do mistério pascal e relacionamos tudo à celebração da eucaristia, “centro e ápice de toda vida cristã”. Por isso, quando recordamos e celebramos a vida de um sacerdote, ex-aluno do nosso colégio, pioneiro da primeira turma, no longínquo ano de 1934, o fazemos com profundos sentimentos eucarísticos, Esta celebração ocorre no marco das comemorações dos setenta e cinco anos do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em tempo pascal e na recordação dos cem anos desde o nascimento de Dom Helder Câmara.

Inspirando-me nele, em seu livro “O Deserto é fértil”, convido a todos “a colarem seus ouvidos no chão” para auscultarem os passos do Pe. João Bosco Penido Burnier nestes mesmos corredores que percorremos nesta casa, nestas mesmas salas e capelas que freqüentamos, nestes mesmos degraus das escadas que subimos e descemos. Convido-os, também, a fixarem seus olhos da imaginação nas pegadas dele, ainda que invisíveis, nas quais marcamos agora as nossas pegadas. Se destacamos do meio de tantos outros passos e de tantas outras pegadas as marcas deixadas pelo Pe. João Bosco, é porque ele se constituiu num exemplo eloqüente de discípulo e missionário de Jesus Cristo, esmerando-se na sua formação segundo o coração de Jesus e segundo as diretrizes e orientações da Igreja de então. É por isso que nos interessamos pelos passos e pelas pegadas dele também antes e depois de sua passagem pelo nosso colégio. Não só para lhe prestar uma justa e merecida homenagem, recordando-o, i.é, fazendo-o passar pelo nosso coração, mas também para colocá-lo ao lado do Santo Cura D’Ars como modelo para a celebração do Ano Sacerdotal anunciado pelo Santo Padre.

Sua trajetória antes de chegar ao Pio: Nasceu em Juiz de Fora aos 11 de junho de 1917, filho de tradicional família mineira. Seu pai, o engenheiro Henrique Burnier, era filho do famoso construtor da Linha Centro da Estrada de Ferro Central do Brasil, engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier, e neto do Dr. Michel Noel Burnier, advogado, exilado político francês, falecido no Rio de Janeiro em 1848. Sua mãe, Maria Cândida Penido, era filha do Dr.João Nogueira Penido, de antigo tronco mineiro.

Ao ser batizado, recebeu o nome de João Bosco em homenagem ao fundador dos Salesianos, já que sua mãe havia feito a promessa ao santo em pleno processo de canonização se seu filho nascesse saudável e sem o problema da surdo-mudez de que eram acometidos outros irmãos em conseqüência de casamento consanguínio, ele seria batizado com o nome de João Bosco. Ao saberem disso, os salesianos e familiares do santo enviaram de Milão para Juiz de Fora uma noz-avelã, sobra daquelas que São João Bosco distribuía e se multiplicavam milagrosamente em suas mãos.

Menino ainda, aos 11 anos, em 1928, João Bosco Burnier ingressou no antigo seminário arquidiocesano do Rio de Janeiro, onde fez seus estudos de nível médio. Em 1933 o cardeal Dom Sebastião Leme o enviou para Roma para fazer seus estudos de filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, residente no Colégio Pio-Latino. Um ano depois, se transferia com os demais brasileiros para o nosso Pio. No decorrer deste tempo, resolveu fazer-se jesuíta, ingressando no Noviciado dos Jesuítas de Nova Friburgo, em 21 de outubro de 1936. Ali permaneceu como noviço e estudante junior até 1940. Dali foi para a cidade do Rio de Janeiro, sendo encarregado da formação dos alunos do Colégio Santo Inácio, que pretendiam fazer-se jesuítas e residiam ou se reuniam no Centro Vocacional Aloisianum, dentre os quais Dom Luciano Mendes de Almeida, Pe. Marcello Azevedo e Dom José Carlos de Lima Vaz.

Começou seus estudos de graduação em Teologia em São Leopoldo e os concluiu em Roma na Gregoriana. Aqui em Roma ordenou-se sacerdote no dia 27 de julho de 1946. Em setembro de 1947 foi para Gandia, Espanha, para complementação de sua formação espiritual e pastoral. Em meados de 1948 foi novamente chamado a Roma pelo Padre Geral da Companhia de Jesus, sendo nomeado Assistente para a América Latina e no dia 2 de fevereiro professou sua consagração definitiva na Companhia de Jesus.

Retornou ao Brasil nos primeiros meses de 1954, designado vice-provincial da região de Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo. Neste cargo de uma Província recém-constituída dedicou-se infatigavelmente ao trabalho de implantá-la, consolidando as obras existentes em Belo Horizonte e Anchieta, no Espírito Santo. Fundou o Colégio dos Jesuítas de Juiz de Fora, do qual foi o primeiro Diretor, cumulando este cargo com o de vice-provincial.

Nos primeiro meses de 1958 foi designado Mestre de noviços no noviciado de Itaici, sendo Mestre de nosso Padre Geraldo Antonio Coelho de Almeida e do atual Provincial do Brasil Pe. Carlos Palácio. Profundamente piedoso e fiel à bonita experiência de Deus e de assimilação da espiritualidade inaciana que aprendera, procurou com dedicação e desvelo inculcá-las aos que lhe foram confiados pela Providência divina como seus formandos. Até aqui, seus passos e suas pegadas se caracterizavam por um perfil e um jeito de ser e de proceder condizente com os tempos pré-conciliares

A pedido seu, levado por seu espírito missionário que ele sempre quisera endereçar para o longínquo Japão, partiu em 1966 para a missão da Companhia de Jesus – numa iniciativa apostólica interprovincial – na Prelazia de Diamantino, Mato Grosso. Ali, seus 10 anos de vida missionária foram intensamente vividos, com um entusiasmo de jovem. Etimologicamente, a palavra entusiasmo provém de en theós, que leva Deus dentro. O desfecho destes anos missionários do Pe. João Bosco é uma prova contundente de seu seguimento de Jesus Cristo e de seu zelo apostólico em serviço evangelizador aos seus novos irmãos, indígenas ou não, em sua nova missão. Nos primeiros anos seu trabalho foi mais nas incipientes paróquias espalhadas no vasto sertão da Prelazia. Pouco a pouco, dedicou-se depois diretamente ao trabalho com os índios Bakairi e Xavante, procurando aprender a sua língua.

A humildade do sábio João Bosco talvez fosse a sua principal virtude, ao lado do serviço-doação aos outros. Sempre disposto a reconhecer os seus erros e a mudar. No contato com a nova realidade, foi dócil aos ensinamentos conciliares da Igreja e fez um esforço enorme por adaptar-se aos novos tempos e circunstâncias. Mergulhou de cheio naquilo que mais tarde João Paulo II diria da nova evangelização: nova no conteúdo, no método e no ardor.Empenhou-se profundamente na busca de princípios sólidos e verdadeiros para atuar junto aos índios. Nesta busca ardorosa e humilde reflexão, conseguiu nos seus últimos anos de vida uma conversão profunda.

Os últimos passos e as últimas pegadas: A prova maior: entregar a vida.

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida”( Jô 15,13 ) Aplicando este texto ao Pe. João Bosco, o Pe Carlos Palácio escrevia:” No itinerário exterior da vida do Pe. João Bosco Burnier nada faria pensar que ele teria um destino de “mártir”: testemunho de uma vida dada em prol dos outros e selado com o derramamento do próprio sangue.Quem poderia imaginar a virada que supôs na sua vida a partida, em 1966, para a missão na Prelazia de Diamantino? Tanto a sua formação, como as funções que desempenhou pareciam indicar que sua vida de jesuíta seguiria o comum dos mortais. Mas a geografia exterior é insuficiente para desvendar o enigma de uma vida. Só podemos ter acesso ao mistério de uma pessoa através de seu itinerário interior: a sua experiência fundante, o que alimentava, alentava e inspirava as suas opções, unificando e dando sentido à sua vida. Ora, a chave de interpretação do itinerário interior do Pe. João Bosco é o seu desfecho final: a vida “entregue” em prol dos outros. Como a de Jesus.”

Como foi? Dom Pedro Casaldaliga o descreve: “ Como coordenador do Regional do CIMI, no nordeste do Mato Grosso, o Pe. João Bosco veio à nossa Prelazia de São Félix para nos acompanhar no Encontro Indigenista anual da Prelazia. Foi nos dias 4, 5, 6 de outubro de 1976. Em Santa Terezinha, MT. Naquela Santa Terezinha dos posseiros, da Codeara e do Pe. Francisco Jentel. Com isso, já na vinda, o padre realizava um velho sonho de infância: ver o rio Araguaia, o grande Araguaia das lendas e narrações, dizia ele. De São Felix a Santa Terezinha viajou de “voadeira”, durante umas seis horas, sob uma chuva imponente no último trecho, um verdadeiro batismo de Araguaia. Participou do encontro, alegre, expansivo, feliz e descontraído. Contribuiu com oportunas colocações. Sempre naquela sua atitude de meditação, mas cada dia mais comprometido com a Causa Indígena, cada dia mais solidário e identificado com a missão do CIMI e seus métodos que não se ocupavam somente da salvação das almas dos índios e de aculturá-los à civilização ocidental, mas que ventilavam temas da terra, reservas, demarcação, invasões, garimpos, roubo de madeiras, desmatamento, educação bi-língue, saúde e preservação dos meios e métodos naturais aprendidos de geração em geração. Além disso, tratavam também do impacto causado pelo turismo em Hotel Flutuante, dos relacionamentos e conflitos entre diversas tribos e culturas dos próprios grupos indígenas, das influências de grupos de evangélicos pentecostais, quer ecumênicos, quer anti-ecumênicos. Partilhavam entre si experiências de iniciação dos indígenas à vida cristã e a prática da administração dos sacramentos respeitando os ritos e costumes deles.

Após o encontro, visitou a aldeia Tapirapé. Regressou com Dom Pedro Casaldaliga a São Félix no dia 8 de outubro. No dia 11, às 6 horas da manhã, pegaram o expresso Xavante da linha São Félix – Barra do Garças e à 13 horas chegaram a Ribeirão Bonito, um lugarejo ainda da Prelazia, de mil e tantos habitantes.Esta foi a última viagem consciente do Pe. João Bosco. Decidiu pernoitar lá.: conheceria o pessoal da equipe que ali trabalhava e conheceria o povo.No dia seguinte prosseguiria viagem par Barra dos Bugres, Cuiabá, Diamantino e a longínqua aldeia dos seus índios Bakairi.

Só que os planos de Deus eram outros.Quando chegamos ao Ribeirão Bonito, escreve Dom Pedro, logo nos sentimos envolvidos por um certo clima de terror que pairava sobre o lugar e as redondezas. A morte do cabo Félix, da Polícia Militar, infelizmente muito conhecido fazia cinco anos na região, pelas sua arbitrariedades e até crimes, trouxe ao lugar um grande contingente de policiais e, com eles, a repressão arbitrária e até a tortura.

Duas mulheres, dona Margarida e dona Santana, estavam sofrendo na delegacia, impotentes e sob tortura: um dia sem comer e beber, de joelhos, braços abertos, agulhas na garganta, sob as unhas; uma repressão desumana, porque os policiais queriam arrancar delas confissões a respeito dos suspeitos da morte do sargento. Eram 6 horas da tarde e seus gritos se ouviam na rua. Decidi ir à delegacia, interceder por elas. Um rapaz da missão quis me acompanhar. Temi por ele e não lho permiti. O Pe. João Bosco que estava lendo, rezando, fez questão de me acompanhar.

Quando chegamos ao terreno da pequena delegacia local, cercado por arame, os policiais vieram ao nosso encontro. Enfileiraram-se, em atitude agressiva. Entramos pela cerca de arame, que ia ser também cerca de morte. Eu me apresentei como Bispo de São Félix. O Pe. João também se apresentou. E tivemos aquele diálogo, de talvez três a cinco minutos.Sereno , de nossa parte;com insultos e ameaças, até de morte, por parte deles. Quando o Pe. João Bosco disse aos policiais que denunciaria aos superiores dos mesmos as arbitrariedades que vinham praticando, o soldado Ezy pulou até ele, dando-lhe uma bofetada fortíssima no rosto Inutilmente tentei cortar aí o impossível diálogo e disse: “ João Bosco, vamos...” Era tarde. O soldado descarregou também no rosto do padre um golpe de revólver e, num segundo gesto fulminante, o tiro fatal, no crânio.

Sem um ai, o mártir, sim o mártir, caiu esticado, pensei que morto. Na verdade ainda foi possível ouvi-lo dizer: “Estou oferecendo a dor que sinto agora pelo povo desta Prelazia e pelo meu povo da Prelazia de Diamantino”. Levado às pressas para uma pequena clínica da Prelazia em Ribeirão Bonito, atendido pelo Dr.Luiz e pela Irmã Beatriz,pouco puderam fazer : a bala tinha atingido o cérebro. Pe. João Bosco, em longa agonia que haveria de acabar no dia 12 de outubro, Nossa Senhora Aparecida, em Goiânia, para onde fora levado de avião teco-teco, rezava: “acabei minha carreira”, “tudo está cumprido”, “ Dom Pedro, acabamos a nossa tarefa...”.

Morreu pelas 5 horas da tarde. Na catedral de Goiânia, velório e Missa de corpo presente. Depois, translado para Diamantino, onde foi concelebrada outra missa. Numa estante próxima ao altar a camisa ensangüentada com uma inscrição abaixo: “Sem derramamento de sangue, não há libertação”. O corpo foi enterrado no pequeno cemitério dos jesuítas,ao lado de diversos companheiros missionários.

Refletindo sobre sua vida de dedicação constante compreendemos que o seu heróico martírio foi uma conseqüência de toda uma vida dedicada ao outro. O martírio-doação-até-a-morte pelos que amamos não se improvisa. Oxalá, o sangue dos mártires brasileiros e latino americanos seja semente de novos cristãos, de igual dedicação ao Reino de Deus que é feito de coisas paradoxais que o mundo aborrece, mas garantia de salvação e felicidade para quem o abraça e constrói. Assim seja.




 

Voltar à página principal