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Do Pio Latino-americano ao Pio Brasileiro:

150 anos de presença brasileira, em Roma.

A 21 de novembro de 2008, o Pontifício Colégio Pio Latino-americano, uma instituição eclesiástica, destinada à formação do clero da América Latina, em Roma, completará 150 anos de existência. A primeira de suas seis sedes, no decorrer desses anos, uma dependência do Convento dos Teatinos, junto à Basílica de S. Andrea della Valle, abrigou os 17 alunos fundadores, provenientes da Colômbia, Argentina e Peru. 

Pelo Pio Latino, como o Colégio é mais conhecido, no decorrer de várias décadas, passou também um considerável número de seminaristas, oriundos de diversas dioceses brasileiras. Lá se formou, além de muitos padres, um consistente número de bispos e arcebispos que, a partir do final do século XIX e no decorrer da primeira metade do século XX, conduziram as dioceses e arquidioceses que se iam multiplicando pelo Brasil a fora.  Dentre eles, três receberam o título de Cardeal: D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, D. Sebastião Leme da Silveira Cintra e D. Alfredo Vicente Scherer. D. Joaquim Arcoverde foi o primeiro latino-americano a ser distinguido pela Igreja com tão alta honraria.

Com o passar dos anos, porém, o número dos alunos do Pio Latino continuava a crescer e os responsáveis por essa instituição julgaram ser o momento de encaminhar um possível desmembramento dela. Essa idéia encontrou o apoio do Papa Pio XI e a colaboração efetiva do Geral da Companhia de Jesus, Padre Vladomiro Ledockowski, mesmo porque eram os jesuítas que, desde os primeiros anos, dirigiam aquela importante casa de formação. Por outro lado, os prelados brasileiros, que já há muito tempo vinham alimentando o sonho de um Colégio eclesiástico próprio, na Cidade dos Papas, assumiram, sob a liderança de Dom Sebastião Leme, com entusiasmo, essa idéia.

Com efeito, no Natal de 1927, nossos bispos enviaram ao Clero e aos Fiéis do Brasil uma Carta Pastoral Coletiva, apresentando as razões que justificavam a construção de um colégio próprio, em Roma, e, ao mesmo tempo, lançavam uma Campanha Nacional para recolhimento de fundos, a fim de realizar o ambicioso projeto. Em 1929, depois de superados todos os entraves, foi lançada a primeira pedra, iniciando-se, logo em seguida, a construção do edifício. Cinco anos mais tarde, 03 de abril de 1934, celebrou-se a inauguração. A turma fundadora, formada por 34 padres e seminaristas, saiu do Pio Latino, donde há meses aguardava ansiosamente aquele momento. Como no Colégio anterior, também aqui a direção coube aos jesuítas.

Daí para frente, os alunos foram aumentando, até ao advento da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Durante o período da guerra, o número dos alunos se reduziu a apenas 12, assim mesmo porque já não havia condições seguras para o retorno deles à Pátria distante. Depois, porém, o movimento, se inverteu. Assim, já no ano acadêmico de 1954-1955, o Pio Brasileiro abrigava a maior turma de sua história, até hoje: 130 alunos.

Na década de sessenta, no decorrer do Concílio Vaticano II, os residentes de então não só tiveram a alegria de conviver com o Episcopado brasileiro, presente, em Roma, por largas temporadas, mas também a oportunidade de participar de conferências e debates, envolvendo os maiores teólogos da época, como Rahner, Congar, De Lubac, Chenu, Ratzinger, Schillebeeckx, etc. Muitos dos padres de hoje, que tiveram a ventura de ser aluno do Pio Brasileiro, naquela época, ainda falam com emoção da extraordinária experiência de Igreja que vivenciaram.

Mas o pós-Concílio, além da salutar renovação que desencadeou em vários setores da Igreja, também provocou, com sua novidade, uma profunda crise em muitas de suas estruturas. Os Seminários e as Casas de Formação, em geral, também em decorrência de outros fatores, foram atingidos profundamente. Por toda a parte, os seminários se esvaziavam e, no Brasil, as coisas não aconteceram diferentemente. Os reflexos dessa crise logo se fizeram sentir também no Pio Brasileiro. O alunado começou a diminuir e, como em toda parte, aumentava o clima de insatisfação e contestação.

Mas, felizmente, essa fase, há tempo, já foi superada. No Brasil, mesmo em Regiões onde antes escasseavam as vocações sacerdotais, hoje, se convive com seminários florescentes. Também no nosso Colégio, pouco a pouco, foi-se recuperando o clima saudável de antes e o número dos alunos, a partir da década de noventa, foi sempre aumentando, até superar a casa de 120.

Embora a grande maioria dos padres provenha de dioceses do Brasil, o Colégio vem acolhendo, sobretudo a partir dos anos oitenta, um certo número de alunos, oriundos de outras nações, quase sempre de países latino-americanos ou da África Portuguesa. Nos últimos anos, também foram recebidos alguns representantes do longínquo Timor Leste, antiga colônia de Portugal.

E hoje, como se apresenta o dia-a-dia do Pio Brasileiro?  - Para começar, todos os alunos ordinários são sacerdotes, envolvidos em programas de pós-graduação universitária. Quase um terço deles está inscrito num curso de doutorado. Em decorrência dessa situação, a vida da casa é baseada mais na autodisciplina, do que em horários minuciosos. Cada um, respeitando os momentos comunitários indispensáveis, organiza seu próprio dia, sabedor de que o estudo, na universidade ou em casa, constitui, aqui, sua ocupação principal. Evidentemente que há outros elementos importantes a serem considerados: vida espiritual e eucaristia, atividades culturais, esporte e lazer que, conforme o gosto e as disponibilidades pessoais, também estão presentes nas preocupações de cada um. A dimensão pastoral é vivida buscando-se as ocasiões favoráveis. No período do Natal, da Páscoa e nas Férias de verão, quase todos realizam alguma atividade nas paróquias. Vários, no decorrer do ano, celebram em casas de religiosas, situadas nas imediações do Colégio ou ajudam, nos fins de semana, em paróquias não muito distantes de Roma.

Mas a vida do Colégio não se resume apenas a estudo, pastoral e oração. Em momentos especiais, há celebrações maiores, com afluência de autoridades e de público externo. Dentre todas, merecem destaque o Dia da Independência do Brasil e o Dia da Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Nessas datas, depois da missa festiva, costuma haver uma confraternização, no Salão de Atos. Essas ocasiões se constituem em momentos de descontração e amizade para os que vivem longe da Pátria.

Não obstante todos esses elementos, porém, qual é o resultado mais duradouro que o Pio Brasileiro tem proporcionado à Igreja do Brasil? – Nos seus setenta e quatro anos de existência, já passaram pelo Colégio mais de 1800 alunos, uns ainda seminaristas, outros já sacerdotes, muitos dos quais residiram ali por duas ou mais temporadas. A grande maioria deles ocupou ou ocupa atualmente funções importantes no magistério eclesiástico, na direção e formação dos Institutos Filosóficos e Teológicos, nos Seminários ou em outros setores importantes das dioceses, espalhadas pelo Brasil a fora e também por outras regiões do Mundo. Os ex-alunos ordenados bispos já somam 122, dos quais quatro atingiram o cardinalato: D. Agnelo Rossi (também foi aluno do Pio Latino), D. Serafim Fernandes de Araújo e D. Geraldo Majella Agnelo e D. Odilo Pedro Scherer. Um ex-aluno, Pe. João Bosco Penido Burnier, S, J., deu sua vida pela causa da justiça e de outro, o antigo Bispo de Garanhuns, D. Francisco Expedito Lopes, assassinado por um sacerdote tresloucado de sua diocese, foi introduzida, no ano passado, a causa de beatificação.

Apesar de, por ocasião do lançamento da primeira pedra do edifício, alguém ter considerado esse dia como a data dolorosa para a “Mística Pio Latina”, ou seja, a união espiritual e religiosa dos seminaristas e padres de todas as nações latino-americanas num único Colégio, na cidade de Roma, de fato, os resultados colhidos, ao longo dos anos, parecem indicar o contrário. E quando, no final de 2008, o Pio Latino celebrar seu Sesquicentenário, o Pio Brasileiro também quer participar de sua festa, como o primeiro filho emancipado, sim, mas sempre um membro orgulhoso de pertencer à grande família latino-americana.

P. Geraldo A. Coêlho de Almeida, S. J.

 

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